Pensamento do dia...

"Continua a bater à porta e, a alegria que há dentro de ti, acabará por abrir uma janela e espreitar para ver quem é." (Emily Dickinson)
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sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Improviso para desesteriotipar...

Dizias de tudo o que te fazia vibrar
fossem cordas de uma harpa
ou de uma guitarra
ou de um violoncelo
que era romântico
e eu replicava sempre
nenhum adjectivo pertence às coisas
mas a cada um de nós
e tu ficavas confusa
porque não entendias
julgavas talvez
que as flores nascessem românticas
por força de uma lei qualquer
da natureza
um dia saberás que os adjectivos
são a única e exacta medida
da subjectividade
tudo o mais
repartimos com o universo.

Ademar

domingo, 13 de outubro de 2019

Improviso para pedir esmola...

Almeida Júnior - A Mendiga




A despir-me nas palavras
descurei o guarda-roupa
e a nudez visitou-me
entre rasgões e remendos
não
não me sirvas mais
à mesa do desejo
o vinho
nem a antologia
veste-me apenas
como um sem-abrigo
e diz-me depois
antes não
que me queres assim.

Ademar

quinta-feira, 28 de março de 2019

Improviso para não agitar antes de usar…

Dia sim
dia não
dizes-me adeus
o estranho
é que não me lembro
de te ter conhecido.

Ademar

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Ademar

publicado em "Descansando do Futuro (Reserva de Intimidade)", Asa, 2003

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Improviso para natureza quase morta...

Nunca cabes inteira na tela
sobra sempre um braço uma mão
uma perna um pé
o horizonte do olhar
a esperança dividida
o pensamento rebelde
a vida voa sempre pela janela
quando as paredes te estreitam.

Ademar

sábado, 19 de agosto de 2017

Improviso diurno para dizer improbabilidades...

Um último café
um último cigarro
um último gole de whisky
e uma vez mais
Salve Regina
Haydn para amantes silenciosos
e improváveis
como foram sempre todos os amantes
que nunca chegaram a ser
não voltarei a dizer-te os poemas
que nem tu sabias
que tinham sido escritos para ti
não voltarei a acampar nos teus desertos
a fugir das palavras com que me acenavas
da outra margem dos dias envergonhados
morri precisamente na hora em que nasceste.



Ademar

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Improviso para te dizer ainda Barcelona...

Tens razão
a poesia é a arte superior
da imobilidade
subo e desço as Ramblas
todas as noites
e raramente te encontro
senão nos gestos suspensos
da estátua que todos fotografam
e levam para casa
és tu
e nenhum outro silêncio
tem a eloquência do teu olhar
e uma tão perfeita inexistência.

Ademar

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Improviso sobre o silêncio...

Sou despojado de metáforas
que não rimem com a minha natureza
sou distraído de realidades que ignorem
a exacta condição humana a que pertenço.
Escrevo para dentro
porque não tenho entendimento para fora
as pontes que almejo atravessar
aproximam apenas as fronteiras do que sinto.
Não tenho urgências de visto e passaporte
viajo silenciosamente nos interiores de mim
e só venho à superfície
para confirmar que tu me esperas.

Ademar

domingo, 23 de julho de 2017

Improviso tardio para Mumuki…

Se não morrermos esta noite
digo-te
morreremos amanhã
ou talvez depois
sobre a eternidade em Veneza
a Veneza de todos os regressos adiados
não sei de nenhuma certeza
tão exigente como esta
e tão sábia.

Ademar

Improviso para simplificar a escrita...

Se me pedisses um conselho
dir-te-ia
não forces as palavras
deixa que elas te visitem
como se simplesmente
regressassem a ti
depois de uma longa viagem
as palavras habitam-nos
quem se escreve
não se procura.

Ademar

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Improviso para recontar La Traviata...



Todas as mulheres foram margaridas ou violetas
num capítulo qualquer de um libreto
para Verdi
e trouxeram no peito uma camélia
e deram a beber do seu vinho
a todos os homens com sede
e a nenhum
senão o único
tiro tudo de casa dizes
pinto o tecto e as paredes
deixo apenas uma tela no lugar do corpo
onde os teus olhos repousem
e uma jarra que anuncie a primavera
e um berço talvez por estrear
tenha a forma que tiver
dois poemas podem cruzar-se
num.

Ademar

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Improviso sobre Invierno Porteño, de Piazzolla...



Tinhas pássaros nas asas
quando vieste
nessa manhã que ainda mal nascera
da madrugada
não contei as tatuagens na tua voz
mas sei que cantaste em segredo
e só eu te ouvi
o espaço é um tempo breve
nas gaiolas sem grades
ainda mal acordaras
e já partias
para a mais longa viagem
que nos prometêramos.

Ademar

Improviso sinóptico...

Ainda é cedo para cortar a noite às fatias
e servir-me de todas
ou servir-te
nenhuma noite cabe inteira na boca
mesmo a retalho.

Ademar

Improviso para tecer devagar...

Talvez o amor seja breve
e ainda assim artesanal
em Casablanca
mas todos os cenários foram tardios
e nenhuma lua
verdadeira
talvez o amor tenha um piano
à boca de cena
ou uma harpa
quinze dias passam depressa
quando o tempo se conta em séculos
e outras espécies se extinguirão
antes que a luz regresse
ao exacto território de todas as sombras.

Ademar

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Improviso em forma de haiku para dizer a contingência...

É mais fácil descansar do futuro
ainda que no caminho tortuoso das palavras
os gestos tropeçam sempre na memória.

Ademar

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Improviso confidencial…

Os machos em geral não entendem
que quando uma fêmea confessa
que anda com muita energia
isso não significa
pelo menos necessariamente
que ande com tesão e com vontade de foder
os machos aliás
também em geral
percebem muito pouco de fêmeas
e dos seus estados ou estádios de alma
refiro-me ao râguebi naturalmente
já imagino que vais dizer
que o teu amante parcial
esse que tem uma casa de mulher
e só veste roupa azul e conservadora
palavras tuas
merecia uma entrada porventura
menos gongórica
e que o sangue pedido
tarda a escorrer da tela
se queres mesmo sangue
dir-te-ei que ainda não percebi
quando me fazes certas confidências
sobre sindicalistas aéreos
se estás a tentar-me ao ciúme
ou ao ménage à trois
com legendas em japonês.

Ademar

sábado, 17 de junho de 2017

Improviso cartesiano…

O cepticismo
é uma higiene dos sentidos
a humanidade
quer-se todos os dias interrogada
para não encardir.

Ademar

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Antologia poética (6)...

Iniciação...

Não cobiço nem disputo os teus olhos
não estou sequer à espera que me deixes ver através dos teus olhos
nem sei tão pouco se quero ver o que vêem e do modo como vêem os teus olhos
Nada do que possas ver me levará a ver e a pensar contigo
se eu não for capaz de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo
Não me digas como se caminha e por onde é o caminho
deixa-me simplesmente acompanhar-te quando eu quiser
Se o caminho dos teus passos estiver iluminado
pela mais cintilante das estrelas que espreitam as noites e os dias
mesmo que tu me percas e eu te perca
algures na caminhada certamente nos reencontraremos
Não me expliques como deverei ser
quando um dia as circunstâncias quiserem que eu me encontre
no espaço e no tempo de condições que tu entendes e dominas
Semeia-te como és e oferece-te simplesmente à colheita de todas as horas
Não me prendas as mãos
não faças delas instrumento dócil de inspirações que ainda não vivi
Deixa-me arriscar o barro talvez impróprio
na oficina onde ganham forma e paixão todos os sonhos que antecipam o futuro
E não me obrigues a ler os livros que eu ainda não adivinhei
nem queiras que eu saiba o que ainda não sou capaz de interrogar
Protege-me das incursões obrigatórias que sufocam o prazer da descoberta
e com o silêncio (intimamente sábio) das tuas palavras e dos teus gestos
ajuda-me serenamente a ler e a escrever a minha própria vida.

Ademar

publicado em "Descansando do Futuro (Reserva de Intimidade)", Asa, 2003

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sou tantos
que nem eu próprio sei
quantos

Ademar Santos
publicado em "Descansando do Futuro (Reserva de Intimidade)", Asa, 2003