Pensamento do dia...

"Quem anda duzentas jardas sem vontade anda seguindo o próprio funeral, vestindo a própria mortalha..."(Walt Whitman)
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quinta-feira, 2 de março de 2017

Com mais razão do que, provavelmente, ele próprio julga...


Há muito que digo que a escola que temos, a escola das jaulas, programada por uma cambada de mentecaptos sentados nas secretárias dos ministérios da educação (em geral, gente frustrada da ensinança que nunca conseguiu ou tentou dar uma aula a uma turma de 30 crianças ou adolescentes), é imensamente burra e ineficaz. Os resultados estão à vista e não vale a pena perder muito tempo a contestá-los. Os miúdos vomitam a escola e as sociedades pagam exorbitâncias para manter sistemas de ensino que quase só produzem ignorantes. O ponto está na... solução. Há quem acredite que com mais escola à moda antiga, mais programação e mais chicote... tudo se resolverá. Eu, que sou professor e sou pai, posso garantir que não. É preciso dar a volta à escola, virá-la do avesso, acrescentar-lhe sentido de aprendizagem e utilidade social. E o que diz, nesta entrevista, Roger Schank, não sendo original, nem sufragável por inteiro (pelo menos, na minha opinião), merece muito mais do que um sorriso de escárnio. Infelizmente, já sei o que dirão ou pensarão os... iluminados do costume. Mais chicote, mais chicote... e tudo, miraculosamente, se resolverá. Por que não tentais?...

Ademar Santos
Retirado de abnoxio

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Improviso para dizer que a mãe adormeceu...

Salvador Dali


Já desisti de querer governar o mundo
a partir do meu bairro
já desisti mesmo de querer governar o mundo
em que cabe o meu bairro
o poder é uma puta irrespeitosa
e confia-se mais depressa a quem mais o merece
quero apenas amar-te
como se não existisses
digo
como se fizesses parte de mim
nesse espelho em que viajo
à perfeição só falta mesmo
o género que me acrescentes.

Ademar

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Extrema unção...

Se não sabes
o que é dignidade
não sei
como explicar-te
se não sabes
o que é amar
não sei
como explicar-te
talvez porque amar
seja tão único
como o coração
de cada um.



Maria José Meireles

domingo, 29 de janeiro de 2017

Testamento apócrifo de Alexandre Magno, rei da Macedónia …

De Aristóteles aprendi
que a natureza de cada um
é a sua máxima autoridade
e por isso a minha ambição
não se deteve diante de nenhuma fronteira
a eternidade que escutei em cada batalha
foi a única medida da razão
que a mim próprio me impus
persegui apenas um sonho
e a esse sonho sacrifiquei tudo e todos
menos a vaidade da grandeza que me prometera
não poupei traições nem desconfianças
mas fui magnânimo
com todos os cronistas de aquém e de além-mar
e os vencidos que se ofereceram à vassalagem
em troca do perdão
não vacilei diante dos inimigos
nem temi confrontos desiguais
e aceitei o preço mais alto da solidão
porque esse é o destino impartilhável
dos inventores de futuro
o poder construí-o sobre o mito da invencibilidade
e nem na morte abdiquei dele
digo
de mim
herança intransmissível
para que ninguém o diminuísse
o meu sonho teria que morrer comigo.

Ademar

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Improviso para perguntar afinal o teu nome…

Tanto ou tão breve destino
entre as minhas palavras
e o teu olhar tão fiel
é aqui
todas as noites
neste bar de desterrados
que nos cruzamos
e por nenhuma porta
entramos ou saímos
entre comungarmos
o arbítrio das sombras
numa tela com a forma
de uma cama
ou de uma mesa
sobre a qual sempre adormecêssemos
antes mesmo de nos cuidarmos
a poesia tem as fronteiras exactas
deste silêncio compartilhado
encontramo-nos aqui
como em tempo algum
e seremos sempre felizes
assim.
Ademar

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Pedido quase desesperado de ajuda…

"Começou hoje a doer-me a alma. Entrei em pânico, porque não tenho antecedentes, nem sei se isto se trata ou tem cura. Fui às páginas amarelas; procurei por urgências, genéricos, cuidados intensivos, clínicas de dia e de noite… Nada. Fiz uma busca no google. Em vão. Liguei para as avarias. Recomendaram-me o 112. Liguei para o 112. Recomendaram-me as avarias. Consultei três psicólogas amigas. Julguei, pelo menos, que serviam para isto, para aliviar a alma da gente, quando dói. Brincaram. Todos os racionais (garantiram) sofrem, de vez em quando, da alma. Alguns, mesmo, (acrescentaram) toda a vida, incluindo a infância. Quero lá saber: o mal dos outros nunca me prestou conforto. É agora que me dói a alma, a mim, não à humanidade. Que farei com a consciência inesperada desta patologia?…
O meu maior problema nem é que a alma me doa. São, apenas, 21 gramas de sofrimento. É ignorar a causa. Tem que haver uma e eu não sei qual é. Temo ser eu. Daí talvez o pânico…"

Ademar
29.12.2004
recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

sábado, 14 de janeiro de 2017

Video Core 'ngrato - Placido Domingo

Improviso sobre Pietà...


Há dias em que sinto
que morres na cruz
dos meus braços
sem chegares a descer porém
da ausência
em que adoeces
o mármore arrefece
no cansaço de todos os gestos
e nem no ventre da noite
adormeces.


Ademar

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Improviso sobre Ute Lemper…



Tem tantas esquinas
esse regresso
palavras que já mal acertam
o mapa do corpo distraído
o coração que bate ainda mais depressa
quando a noite demora
e o sangue fermenta
na fonte da vida
como se o tempo o engravidasse
de asas ainda voadoras
tantas esquinas
tantas portas e janelas por abrir
tantos buracos negros
em que se perde a dimensão
do desejo adormecido
brincas agora com um nome
que decompões devagar
e juntas partículas
sobre as teclas de um piano
quatro mãos
todo um território.

Ademar

domingo, 8 de janeiro de 2017

Improviso quase perfeito…

Muitas palavras
Quase todas as frases
começam por
se
certo certo certo
só mesmo o que escreveste
nesse diário
que nunca ninguém lerá
as palavras que afogam
no teu silêncio antigo.

Ademar

domingo, 1 de janeiro de 2017

Antologia poética (374)…

Improviso por Scheherazade...




















Não me obrigues
todas as noites
a recontar a mesma estória
corta-me a cabeça
ou finalmente
deixa-me repousá-la em paz
no teu colo.

Ademar

domingo, 18 de dezembro de 2016

Improviso sobre o passado irrepetível...

Ninguém dirá que desisti
quando a loucura parecia tomar a forma
de um borrão na tua alma
e as mãos se desintegravam
nas palavras e nos gestos
que o vulcão implodia
ninguém dirá que desisti
quando mais precisaste de mim
na fronteira do que nunca se diz.



Ademar

sábado, 17 de dezembro de 2016

Laura Ferreira dos Santos (1959-2016) - Esquerda.net | Entrevista Laura Santos


Improviso para quem escolhe morrer...

Quando nenhuma esperança mais
nos consentirmos da vida
com que autoridade
nos compelirão ainda à esperança
aqueles que nunca viveram por nós?

Ademar

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Improviso para dizer que continuarei a ler-te...

Hoje decidi
arrumar-te na prateleira
das edições raras
incunábulos
almanaques antigos
tiragens numeradas
e coisas assim
nunca imaginei
que coubesses na estante
e que fosses tão fácil
de acomodar
sem um protesto
sem uma lamúria
sem um suspiro
devíamos ser todos assim
uns para os outros
edições raras
impartilháveis.

Ademar

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Improviso simplificado...

Abro a janela apenas
para que me possas ver
não importa que me vejas
efectivamente
basta que me saibas ou pressintas
na linha do horizonte interior
dos teus olhos
é no pensamento que nos vemos
sempre
e no desejo que nos prolonga
a morte não tem janelas
nem o esquecimento.

Ademar

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Improviso para cheirar-te...

Alinho olfactos
em nenhuma parte do teu corpo
a tamanha distância impercorrível
e espero simplesmente que se calem
todos os perfumes
todas as fragrâncias
todos os aromas
dos dias lentamente sobrepostos
na aragem do tempo
para
no fim da vadiagem
escutar apenas a essência
da tua mais íntima e líquida e carismática
metamorfose.



Ademar

domingo, 25 de setembro de 2016

Improviso a contado...

Hoje
tinha apenas onze palavras
para escrever um poema
desperdicei-as assim.

Ademar

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Improviso sobre uma inspiração de Klimt...



Despes a altivez devagar
enquanto sobraças a cabeça
do homem que chegou cedo de mais
ao teu regaço
há momentos em que te sentes ainda
mais real do que isto
em que nenhum olhar se eleva
acima do teu
e os braços e as mãos
já não parecem pertencer-te
a nudez só é perfeita
quando já não tens mais palavras
para dizer o silêncio
e te devolves à servidão.



Ademar

sábado, 2 de julho de 2016

Improviso coloquiante…

Hoje não levanto a louça da mesa
não arrumo a cozinha nem as sensações
não faço a cama para dormir sozinho
não tomo banho
nem grito à janela
hoje não quero saber da noite
nem esperarei a carreira dos sonhos
na estação de todas as insónias
hoje não celebro calendários
não vou à missa
nem a jogo
hoje estou exausto do que fui
e prometi a mim mesmo descansar
de mim.

Ademar

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Improviso para explicar que rosa rima com tudo…

Libertinos ou libertários
deixa-nos apenas ser secretos
como as luzes que retocam
as margens
quando o canal adormece
não abras de mais as janelas
não chames o vento
não ergas a voz
a fama
lembra-te
é uma incomodidade
o universo que cruza as arcadas
da praça maior
esgotou a lotação do silêncio.

Ademar