Pensamento do dia...

"Continua a bater à porta e, a alegria que há dentro de ti, acabará por abrir uma janela e espreitar para ver quem é." (Emily Dickinson)
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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Recordo

Recordo
Primeiro dia de escola
Menino sentado na carteira
A chorar abandonado

Recordo
Menino de bibe
Acocorado
Arrancando ervas
A limpar o quintal

Recordo
Um grande amor
Que te levou comigo
Que me levou contigo
Onde quer que fossemos

Recordo
Homem em áfrica
Vestido de guerra, pacífico
Não estranhou a terra
Não estranhou as gentes
Apenas os poentes
A horas certas, repentinos

Recordo
Pai de filho pequenino
A mamar e adormecer
Mãe dormente sorridente
O colinho para o arroto
Mudar a fralda e deitar

Recordo…

Sonho-me
Ar transparente
Azul profundo
Que cobre a terra
Negro infinito
Entre galáxias

Alf. Ago. / 2019

Canções de embalar

Não sei
Não sei cantar.
Histórias de embalar
Não sei
Não sei contar.
Só recordações
Posso tentar
Para te pôr feliz
A dormir e sonhar.

Ouves o vento
Nas frinchas a uivar?
Não te aflijas,
Sonha em paz…
Abre a janela,
O vento livre
Põe o teu moinho de vento
A rodar a rodar.

Sonha com teu moinho
Suave, a rodar.
Sonha com o vento
Nas searas a ondular
É bom
Nas planícies do Alentejo
Sentir o vento passar.

Sonha o infinito do mar
Em que navegaste
Tão azul tão distante.
Mar azul e frio
Transparente, calmo
Em que nadaste
Sob um céu infinito.

Sonha as estrelas
Da escura noite límpida
Como não se vê na cidade.

Sonha nuvens brancas
Em céu azul.

Sonha nuvens negras
Em céu de tempestade.
Não fazem mal
Não te inquietes
Só trazem chuva
Linda, de ver chover.
Talvez relâmpagos
Lindos de ver brilhar
A ziguezaguear.

Sonha montes e vales
Com casinhas pequeninas

Sonha o poente

Sonha o mar

Sonha o ar transparente

Sonha o sol e as estrelas a brilhar

Sonha feliz e contente
O papão não vai voltar.

Tudo calmo tudo quieto
Para tu sonhares.

Alf. Ago / 2019

quinta-feira, 16 de maio de 2019

A história de uma gota



Era uma vez um reino que tinha um Rei e uma Rainha.
Mas não usavam coroa.
No seu reino tinham uma caixa de ver o mundo, mas só o mundo que os outros queriam que eles vissem.
Um dia viram uma rainha de um país muito distante, frio e com nevoeiro, que assistia muito sentada a uma cerimónia.
E tinha uma grande coroa na cabeça.
A coroa era tão grande e tão pesada que a rainha ficava com a cabeça enfiada nos ombros e sem pescoço.
Então o rei e a rainha pensaram, pensaram e, antes que lhes acontecesse o mesmo, resolveram oferecer a coroa ao santo e à santa da sua predilecção.
Assim, o santo e a santa ficaram a ser os padroeiros da nação.
Claro que isso deu mais trabalho aos santeiros, pois tinham de fazer santos e santas com pescoços mais fortes.
O rei lembrou-se que no tempo dos avós e dos pais, todos eles usavam chapéus e, agora, já ninguém usava.
A que santos terão eles oferecido os chapéus que deixaram de ser usados?
Não se lembrava de ter visto santos de chapéu!
O reino era grande: tinha quatro assoalhadas e outros cómodos.
Também convém dizer que havia outras possessões resultantes das conquistas dos seus antepassados.

Essas terras, para além do Rio Este, eram muito distantes, difíceis de gerir e só se lá chegava numa máquina de devorar o espaço.
Mas o reino propriamente dito era muito rico: tinha muitos papéis, grandes árvores até ao tecto e muitas arcas cheias de coisas muito bonitas.
A essas arcas chamam agora caixas de papelão, CD's, prateleiras, DVD's, gavetões e muitos outros nomes.
Como é costume, o reino tinha, como todos os reinos que se prezam, uma entidade superior.
Em alguns reinos é o Sol ou uma grande árvore frondosa, noutros é um crocodilo ou uma formiguinha atarefada ou até uma cigarra cantadora.
Neste reino, o ente supremo era um dragão, com evidentes vantagens.
No inverno aquecia o reino com as labaredas da sua boca.
No verão arrefecia o reino abanando a cauda.
Vivia lá na sua caverna no meio das montanhas.
No entanto havia um problema.
Em casos mais difíceis o dragão tinha de ser consultado.
Mas não era preciso ir à caverna no meio das montanhas porque o dragão andava à vontade pelo reino e só ia para a caverna quando ia dormir: sentia--se mais aconchegado...
Havia outros reinos com quem o rei e a rainha mantinham boas relações de amizade.
E o rei, deste reino, pensou que podia ir às suas arcas e escolher pérolas para oferecer às outras famílias reais.
E eram muitas pérolas: caras de gente feliz, poentes, gaivotas, lagartixas, flores, pedras, troncos de árvore,…
O rei e a rainha começaram a escolher as melhores pérolas para oferecer.
E eram coisas muito bonitas e bem embrulhadas.
Encheram sacos e meteram-nos debaixo dos mantos reais para saírem do reino.

O problema é que, quando o rei e a rainha iam a sair do reino, carregados de pérolas, apareceu o dragão e perguntou: "Que levais debaixo dos vossos mantos?"
Um bocado preocupados com tanta riqueza que levavam para dar, disseram em coro: "São gotas, senhor dragão, lágrimas da natureza".

O dragão quis ver, abriram os mantos reais, e o que se viu?
Eram mesmo gotas, pingos de chuva, lágrimas da natureza.
E foi por isso que as outras famílias reais receberam de presente gotas, apenas gotas.

Alf. Dez. / 2015
(texto impresso e editado, com a devida autorização do dragão, aos 6 dias do mês de dezembro do ano de 2015)

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Felicidade com lágrimas...

Flor-Querida
















Querida.
Como falar-te
Das nossas memórias?

Imagens de flor cinza.

Memórias infinitas
De tempos finitos.

Nossa planta
De flores aladas.

Nossos sonhos
Vogando
Na nossa Vida.

Alf. Mai. / 2019

terça-feira, 7 de maio de 2019

50 barcas

Ao logo dos anos
50 barcas aparelhámos
50 barcas lançámos.

Foram 50 as barcas
Ano após ano
Deitadas ao mar.

Chegaram hoje
As 50 barcas…

Umas vieram de longe…
Outras de mais perto,
Não tiveram tempo
De muito navegar.

Nós à beira-mar
A vê-las chegar.
Nós à beira-rio
A vê-las fundear.

Já deitam âncoras,
Ficam paradas
Nas águas a balouçar.

São tantas as barcas
As barcas ancoradas
Que se podem avistar…

Custa imaginar
Todas as histórias
Que as 50 barcas
Têm para contar.

Cada barca com sua história:
Umas, bem alegres
Algumas de arrepiar.

Todas elas carregadas
De muito viver
De muito sonhar.

Alf. 3 de maio de 2019

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Por que
mas por que
eu não choro?

Estou deixando a terra
para o espaço infinito das galáxias

Tudo me surpreende neste mundo:
guerras, tortura, lucros acima de tudo;
carinho, amor, luta pelos desfavorecidos

Estou deixando a terra
para o espaço infinito das galáxias 

why
but why
I don't cry

I'm leaving the earth
for the infinite space of galaxies

everything surprise me in this world
wars, torture, profits above all
affection, love, fight for underprivileged

I'm leaving the earth
for the infinite space of galaxies


11 / Fev. / 2013
Alfredo
Vem Ver comigo
Querida
esta nossa casa.

Vem Ver
Todos estes livros
uns lidos outros não
Esta confusão,
confusão Babilónica.

Vem Ver
nesta janela virada a sul
a noite crivada de luzes:
Ilhas gregas à deriva
enquanto nossa casa
por entre elas passa.

Vem Ver
o céu profundo
da noite cheia de estrelas.
Algumas são apenas estrelas
outras serão galáxias.
Não importa saber distinguir.

Olho para ti:
és uma Galáxia
mil pontos brilhantes
mil cores atraentes
combinadas entre si.

Quem me dera
Viajar-te profundamente
Viajarmos continuamente.

Alf. Dez. / 2017

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Sou aquele

Sou aquele
Que coleciona
Paus e pedras

Sou aquele
Que sonha
Galáxias auroras boreais
Chuvas de estrelas cadentes
Que nunca vi

Sou aquele
Desajeitado
Que acredita em ti

Sou aquele
Que não sabe
Que fazer o que fazer
Por ti

Alf. Fev. / 2019

domingo, 20 de janeiro de 2019

Levo-te

Levo-te pela mão
Levas-me pela mão
Um casal desce a rua
Céu baço sem estrelas
Muita luz do lampião.
A subir a rua
Passa uma sozinha
Passa uma com um cão
Eles descem, elas sobem
Esta rua solidão.
Qual o destino nosso?
Não o sabemos não
Nem tu, nem eu.
Levas-me pela mão.

Alf - jul. / 2017

Em Cerveira

Em Cerveira passa um rio:
O rio que passa em Cerveira.

Em Cerveira
Esperava tempestades
Afinal encontrei
Plácidas águas e fraternidade

Depois vós
Em plácidas águas ficastes
Em Cerveira

Nós rumámos rio abaixo
Atracámos, almoçámos

Depois nós
Navegámos
Uns para o centro
Outros para o sul

Enquanto vós
Nas plácidas águas
De Cerveira
Faláveis do futuro, presente
Em vossas cabeças

Agora sinto falta
Sinto saudades
Das não ouvidas
Vossas conversas
Em plácidas águas
De Cerveira

Alf. - 26 / mar. / 2017

História da Princesa Triste

Era uma vez uma Princesa que estava triste.
Domava dragões com uma festa no focinho ou com o olhar e, às vezes,
mais aborrecida, dizia:
Não sejas assim…
E o dragão deixava de ser assim.
Mas estava triste e pensava:
Não crio nada, estou em pousio.
Na verdade, a Princesa há muito que não desenhava palavras, não escrevia cores
– pois era assim que trabalhava, a Princesa.

Lembrei-me de um texto antigo.

Fosse Rei
E terias ouro
Incenso mirra

Fosse pastor
E terias
Ovelhas
Cabritos

Terás
Neste dia
Palavras.
Sou apenas
Lavrador
De sonhos.

Pensei para comigo: em vez de ser lavrador, vou ser roubador.
Roubador de sonhos.

Fui aos sonhos da Z. e roubei estrelas
Fui ao sonho das abelhas e roubei geleia real
Fui aos sonhos da C. e roubei chocolates.

Pus tudo num saquinho
Que não era de linho.

Caminhei devagar até chegar ao seu castelo,
entrei no salão da Princesa Triste e falei assim:
A natureza também entra em pousio
Precisa descansar
Depois reverdece e dá frutos
Ela sabe esperar.
Amanhã ou depois
Não há pressa
Vais sonhar e criar.

Depois, depus a seus pés o saquinho
Que não era de linho.

Disse-lhe então:
Sou um roubador de sonhos
Estes não são meus, não
Mas teus serão.
Sou apenas o portador que roubou
E muito caminhou
para te ver sorrir.

E a Princesa Triste, pegou nos sonhos e sorriu.

Alf. - 22 / julho / 2018

Preparação Náutica

Disse o Príncipe, sonhando horizontes azuis e verdes ilhas desconhecidas:
“Aparelhai uma caravela. Tereis a possibilidade de vogar a favor do vento ou à bolina.”
“Ide por esses mares revoltos e encontrai novos rumos, novas terras.”
“O nosso reino está pobre e despovoado. Procurai patrícios perdidos, convertei gentios à nossa fé, trazei riquezas poéticas - que muita falta nos fazem.”
“Os últimos que enviei, perderam parte da marinhagem e o que trouxeram não enriqueceu o meu reino.”
Foi criado um grupo de Doutos:
- que mostrengos evitar?
- que mapas consultar e melhorar?
- navegar junto à costa ou mares ignotos desbravar?
- que marinhagem escolher?
- que capitão, que mestre, que piloto designar?
E foram designados os mais capazes para uma gesta de tal dimensão!
Da marinhagem não se tratou por serem mais as marés que os marinheiros.
Está documentado:
- mapas antigos com rotas a melhorar;
- um estudo oceanográfico com o que de mais recente se conhece, a explorar;
- criação de feitorias por essas costas e ilhas para intercâmbio de artes e poesias;
- procurar patrícios perdidos nas sete partidas do mundo;
- converter gentios à fé da arte poética;
- divulgar ao mundo todas estas descobertas e navegações.
- muitas outras coisas foram propostas, que eu, mero escriba, não entendo e me abstenho de mencionar, até porque em todas as preparações de navegação há projectos a ocultar.
Tudo isto foi apresentado ao Príncipe.
Ficou contente, mas disse:
“Há que ir com cuidado, com tanta navegação, não vos falte a água ou os biscoitos.”
“Aportai sempre que necessário, fazei aguada, carregai frescos e parti para novas terras a desbravar”
E por assim ter acontecido, o venho atestar e, como escrivão que sou, o assino.

Alf (o tal) - mar./2017

Cercados de figuras

Cercados de figuras
Passados do passado
O trio presente
Reabre o futuro.

L aponta: “Este é o caminho”.
R. observa e vê
Em florestas trilhos a abrir
Em montanhas pontes a criar
Em planícies searas a semear.
M., força da natureza,
Transporta alegria
Tal como na fotografia.

Eis a ocasião da ilusão criada
A transformar
Em realidade futura.
Iludamo-nos todos
Com o rumo inventado.
Afinal… com alegria
Somos amigos.

Alf. - 23 / mar. /2017

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Crónica de um “Invento”

Crónica dos acontecimentos acontecidos nos salões da nobre Casa da Sublime Senhora Dona Margarida, em determinado sábado que foi no dia 3 de março do ano de 2018.

É esta Crónica dedicada à mui Admirável, Excelsa e Fantástica Senhora Dona Margarida, protectora de todas as Artes e Ofícios afins a elas ligados.
Protectora da prosa e da poesia,
Do teatro e do cinema,
Dos livros lidos e dos livros a ler.
[“Que raiva! Ninguém me falou deste livro! Tão giro!”]

Vieram de longe alguns
De perto vieram outros

Uns
Vieram sós
Outros
Em grupos

A pé
De burrico ou a cavalo
De caleche ou em diligências
Transportes escolhidos
Conforme as posses
Ou as conveniências.

Rios
Foram atravessados a vau
Montanhas
Subidas e descidas a custo
Praias palmilhadas
Varridas de ventos e sargaços.

Sofreram frios, chuvas, ventanias e cansaços.

Alguns
Perderam-se, desistiram, voltaram a suas casas
Outros
Perdidos, pediram ajuda, chegaram.

Foram chegando
Foram chegando e entrando
Nos vastos salões
Da nobre casa

[“Vim de longe
De muito longe
O que andei para aqui chegar
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos para nos dar”]

Todos sorriam
Se cumprimentavam
E havia conversas cruzadas.
Por fim o silêncio.

A Úsnea
Começou a rebentar
Num ramo de árvore
Cresceu e foi a floresta.
Perdidos na floresta
Os presentes, calados
Viram a humanidade formar-se,
A humanizar-se
Ao longo dos tempos.
As memórias de um
Transformaram-se
Na memória de todos
Na memória de cada um.

E o silêncio final.

[Afastei-me
Fui olhar as árvores e a chuva
Sentir o vento.
Fiquei paralisado
Ressoavam as palavras
Transformadas em sentimentos.
Aproximei-me
E olhava a multidão
Falando, em movimento
Fiquei paralisado longo tempo
Recuperei, lentamente]

Repentinamente
A mesa encheu-se
De comeres e beberes
Tantos e tantos
Que não havia espaço

[“Com o que temos para nos dar”]

A festa
Iniciada com a chegada de uns e outros
Continuada com o poema lido
Explodia agora:
Em conversas soltas,
Surgiam textos
Eram contadas aventuras
Em conversas soltas.

[“Com o que temos para nos dar”]

Nunca se viu tal unidade
Nas diferenças pessoais.

E o tempo estava parado.

Repentinamente
O tempo alargou-se,
Sem que se desse por isso,
Já eram duas e tal.

Alf. - Mar. / 2018

Tenho

tenho
uma saudade imensa
não sei de quê

olho o céu muito azul
neste dia de inverno
um pouco frio
e sinto saudade

não tenho paciência
para cartas formais
contas bancárias
tratar de ficheiros
ordenar papéis
negociar

quero criar
imaginar
escrever e desenhar
mas o quê?

tenho
uma saudade imensa
de criação

Alf. - Jan. / 2015

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Peixe

Percorri
Dunas moventes
Em deserto ardente.
Procurava
Para ti um presente
E continuava ausente.

Voei
Por nuvens rosadas
Num dia e no outro
Eram escuras carregadas.
Procurava
Para ti um presente
E continuava ausente.

Mergulhei
No mar azul
Num dia de céu azul.
Procurava
Para ti um presente
E continuava ausente.

Falei
Com a Fada dos Mares
Dos corais anémonas
Peixes reluzentes.
Procurava
Para ti um presente
Que continuava ausente.

A Fada sorriu
E apontou sorridente
“Está ali o teu presente”
Um peixe rosado
E cor de salmão
Pousou na minha mão.

Enfim, encontrei
Para ti um presente
Tanto tempo ausente.

Alf. - Dez. / 2018

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Sentado na areia
Na areia seca
A areia escorre
Por entre os dedos.

Lá longe
A areia molhada
Sonha castelos
Decora-os com algas
Conchas e seixos.

Não saí da areia seca
Sonhei, não construí.

Mais longe
O azul do mar
Promessa de terras
Novos horizontes
Sol e vento.

Partiram as caravelas
Não fui, não naveguei.
Na areia seca fiquei
Não vi, não senti.

Longe, mais distantes,
O mar a vazar
A areia molhada a secar.

A areia seca escorre
O sonho escorre
Por entre os dedos.

Alf. - Novembro, 2016