Ela sabia que um amigo é um irmão que se escolhe.
Ele não tinha irmãos e lamentava…
Ela vivia no alto de uma torre sem janelas... pelo menos para a rua…
Ele era livre mas estava preso a uma enorme vontade de conhecer o seu próprio rosto. Sabia que apenas um espelho verdadeiro poderia satisfazer esse seu íntimo e secreto desejo. Sabia que cada pessoa servia de espelho para as outras e sabia muito bem perceber quando uma pessoa lhe estava a mentir. Depois da primeira desilusão, ele não dava segunda oportunidade. Partia em busca do seu verdadeiro rosto noutro espelho e sonhava, em cada pessoa nova que conhecia, encontrar esse mesmo espelho.
Presa na torre, ela era livre na sua forma de abarcar o tempo, o espaço e a humanidade. Tinha, na música e na literatura, janelas e portas por onde entrava e saía sempre que as paredes a estreitassem.
Num dia em que ela cantava uma música que falava de sorrisos e de feitiços, ele passou perto da torre onde ela vivia.
Num dia em que ela cantava uma música que falava de sorrisos e de feitiços, ele passou perto da torre onde ela vivia.
Ao ouvir a música, ele quis saber quem a cantava.
Começaram então uma longa conversa que não poderia terminar nem que um dos dois morresse porque era muito boa e, apesar de alguns períodos de silêncio, nenhum se esquecia do outro. Assim, a conversa retomava sempre que o acaso quisesse...
Então, com inocência, com malícia e com muita paciência foram estreitando laços que os tornaram cada vez mais cúmplices.
Com o tempo e a impossibilidade de a ver, pois a torre não tinha janelas para a rua, ele decidiu usar a imaginação para criar uma imagem do rosto dela.
Quando terminou a sua obra-prima, olhou-a com espanto ao perceber que era o rosto que ele sempre procurara em todos os espelhos.
Era realmente um rosto extraordinário!
Maria José Meireles
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