sábado, 19 de agosto de 2017

Improviso diurno para dizer improbabilidades...

Um último café
um último cigarro
um último gole de whisky
e uma vez mais
Salve Regina
Haydn para amantes silenciosos
e improváveis
como foram sempre todos os amantes
que nunca chegaram a ser
não voltarei a dizer-te os poemas
que nem tu sabias
que tinham sido escritos para ti
não voltarei a acampar nos teus desertos
a fugir das palavras com que me acenavas
da outra margem dos dias envergonhados
morri precisamente na hora em que nasceste.



Ademar

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Improviso para te dizer ainda Barcelona...

Tens razão
a poesia é a arte superior
da imobilidade
subo e desço as Ramblas
todas as noites
e raramente te encontro
senão nos gestos suspensos
da estátua que todos fotografam
e levam para casa
és tu
e nenhum outro silêncio
tem a eloquência do teu olhar
e uma tão perfeita inexistência.

Ademar

domingo, 13 de agosto de 2017

O teu silêncio...



O teu silêncio

é uma vela

acesa

a esperança

na eternidade.




Maria José Meireles

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

domingo, 6 de agosto de 2017

Acontecer...



Fiquei cativa
de um crime
que prescreveu...
Entreguei-me
para cumprir a pena
mas ninguém quis
o problema...
Então recolho-me
procuro-me
e pergunto-me:
o que espero?

Maria José Meireles

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Improviso sobre o silêncio...

Sou despojado de metáforas
que não rimem com a minha natureza
sou distraído de realidades que ignorem
a exacta condição humana a que pertenço.
Escrevo para dentro
porque não tenho entendimento para fora
as pontes que almejo atravessar
aproximam apenas as fronteiras do que sinto.
Não tenho urgências de visto e passaporte
viajo silenciosamente nos interiores de mim
e só venho à superfície
para confirmar que tu me esperas.

Ademar

Sonata ao luar



Sombra Boa não tinha e-mail.
Escreveu um bilhete:
Maria me espera debaixo do ingazeiro
quando a lua tiver arta.
Amarrou o bilhete no pescoço do cachorro
e atiçou:
Vai Ramela, passa!
Ramela alcançou a cozinha num átimo.
Maria leu e sorriu.
Quando a lua ficou arta Maria estava.
E o amor se fez
Sob um luar sem defeito de abril.

Manoel de Barros

Linhas Tortas - CD Crianceiras - Manoel De Barros



Prefiro as linhas tortas, como Deus. Em menino eu sonhava de ter uma perna mais curta (Só pra poder andar torto). Eu via o velho farmacêutico de tarde, a subir a ladeira do beco, torto e deserto… toc ploc toc ploc. Ele era um destaque.

Se eu tivesse uma perna mais curta, todo mundo haveria de olhar para mim: lá vai o menino torto subindo a ladeira do beco toc ploc toc ploc.

Eu seria um destaque. A própria sagração do Eu.

Manoel de Barros