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quinta-feira, 2 de maio de 2019

desFiar nos anos

Nasci em Abril, o mês bipolar, isto porque desde que me lembro de ser eu sempre confundi as estações do ano neste mês, ora era o Sol que me presenteava, ora era a chuva que me presenteava, quando soprava as velas no bolo caseiro. 
Ao longo destes anos que conto, quarenta e três sem qualquer pudor, o primeiro aniversário que me recordo foi o dos meus seis anos. A minha mãe fez questão que eu estreasse roupa, isto numa tentativa de disfarçar os três pontos que tinha na testa, resultado das minhas corridas malucas no estreito corredor de casa. Durante todo esse dia, o meu cabelo continuou a ser penteado vezes e vezes sem conta, para que os totós com laços de cor pérola, tivessem o ar de que tinham sido feitos por uma profissional. 
Nesse ano recebi um relógio, pois já ia para a escola dos grandes depois das férias e um peluche do Topo Gigio, que me acompanhou durante anos e hoje está no quarto do meu filho, desde o dia em que fez seis anos. 
Dos anos que se seguiram tenho poucas lembranças, os dezasseis anos com a festa na garagem interdita aos adultos, onde se deram os primeiros beijos com língua, os vinte e um anos com uma festa onde se juntaram os membros da família mais chegados. 
Mas eu queria lembrar-me dos dezoito anos e não consigo, da mesma forma que não me lembro dos trinta anos. Lembro-me dos quarenta anos, onde fui trabalhar normalmente, não sou mais do que os outros e o resto do dia passei-o em casa. 
Ao longo destes anos, perdi os meus tios, os meus avós, alguns amigos… Os meus pais continuam presentes no meu aniversário, como todos os que se ausentaram, cumprindo a vida. 
Muitas vezes olho os meus pais, vejo-os como quando tinha dez anos, quero que corram, que brinquem, que cheguem a casa tarde depois do trabalho, sem paciência, que me levem a passear aos domingos, que se zanguem comigo, que me protejam sempre que tenho medo, porque agora eu já não posso ter medo. 
Vejo o meu pai a andar de bicicleta aos domingos de manhã, enquanto a minha mãe se ocupa do assado, vejo a minha mãe a sorrir sem medo de doenças, vejo as férias grandes passadas em casa, os passeios de família e os almoços no restaurante de sempre. 
No espelho o reflexo já não é da miúda adolescente de outrora, consigo aceitar as mudanças e aceito o que os anos me foram dando. 
Olho os meus pais e recuso vê-los, quero-os com sangue novo, cheios de força e coragem para levantar a filha nos braços.

LauraAlberto

quarta-feira, 1 de maio de 2019

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

sexta-feira, 14 de setembro de 2018




















se ainda que amanhã não encontre em mim forças para sorrir, se a força me faltar e as minhas mãos forem substituídas por outras que não minhas e eu as sentir trémulas

então quero que saibas que os dentes tenho-os cerrados, as unhas cravam-se na pele da palma das mãos, as pernas fraquejam e tentam ceder à gravidade

então quero que saibas, que o sangue ainda corre e o coração, esse ainda bate



LauraAlberto

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

segunda-feira, 2 de julho de 2018

sexta-feira, 22 de junho de 2018

chega-me ao ouvido um lamento comedido
uma doce canção de embalar perdida nos tempos idos
que hoje ninguém sabe cantar
[se é uma canção de embalar não poderá ser um lamento]
se nestas terras é o verão que chega, noutras é o inverno que começa
e a voz doce e trémula vai percorrendo o espaço
ouço-a, ora claramente ora imperceptível
[se não está ninguém contigo, nada podes ouvir]

a chuva parou, não tenho fome, nem sede sei ter
os primeiros raios de sol rasgam as nuvens pesadas
não quero ouvir os que de mim se acercam, apenas aquela canção de embalar

LauraAlberto

domingo, 27 de maio de 2018

um dos sítios onde nasci é agora um fosso de terra amarelada
e uma gigante poça de água, onde se firmam os alicerces de um hotel
não consegui guardar tudo o que queria, mas o que foi possível
uma chave sem fechadura, uma placa sem porta

aprendo dia após dia que as nossas bugigangas apenas têm valor para nós
perante a fundura das novas fundações, descubro me viva

LauraAlberto

segunda-feira, 30 de abril de 2018

depois do Animal, o homem
depois do homem restará sempre o Animal

observo os primeiros rebentos nas arvores
a natureza cumpre se uma vez mais
os Animais regressam e fazem se ouvir

onde antes era frio e sem côr
agora respeitam se as leis nunca impostas pelo homem
da vida nasce a morte
da morte nasce a vida
fácil

LauraAlberto

sexta-feira, 27 de abril de 2018

quarta-feira, 11 de abril de 2018















a maior parte das vezes estou com a luz apagada
hoje foi um desses dias, até que alguém entrou e fechou o interruptor
não gosto de ilusões, nem de luz falseada
esperei voltar a ficar sozinha: apaguei a luz, abri os estores
no quadro de cortiça, um conjunto de pionés sorria-me
devolvi-lhe o sorriso, não estava só

diário de um terráqueo, Laura Alberto

terça-feira, 3 de abril de 2018















quando metade dos pés tocam o ar rasteiro
diante de um fosso que se estende debaixo dos teus olhos
ainda que a gravidade te puxe, ainda que tu tenhas decidido cumprir as leis da física
ergue a cabeça um pouco e verás
que diante do abismo também se estende o céu

LauraAlberto
fim do dia:
chegar a casa, tirar a máscara do sorriso, sim está tudo bem
colocar a máscara do eu consigo, eu faço, sim está tudo bem
dormir: não, não está tudo bem, não vês?

LauraAlberto
enquanto acreditar irei levantar-me
se tudo fizer sentido a batalha também o fará
se correrem rios de sangue, que se homenageiem os que padeceram
se a terra for nossa, que se pintem novas bandeiras

quando o amor me faltar, não se preocupem com a minha morte, eu dela tratarei

LauraAlberto

domingo, 18 de março de 2018

bilhete de identidade

o meu nome é ninguém, tenho 41 anos de vida, quase 42
nasci em Abril como tantas outras pessoas
tenho uma família, tenho uma profissão que gosto, tenho emprego
continuo a ser ninguém, com os meus 41 anos
tipo sanguíneo A +, ADN em espiral como todos da minha espécie
não sei o significado da fome, nem da guerra
o meu nome é ninguém e apesar de os meus amigos me tratarem pelo meu nome
o meu nome continua a ser ninguém e estou só

LauraAlberto


digo-te parabéns, não porque hoje é o teu aniversário, mas porque existes

digo-te parabéns, não porque hoje viste o Sol pela primeira vez, mas porque o continuas a ver todos os dias

digo-te parabéns, não por mais um ciclo completo de estações, mas porque sabes sentir cada uma das intempéries e nelas descobrir a vida

digo-te parabéns, não porque hoje viste o mundo pela primeira vez, mas porque o continuas a ver, dia após dia e neles descobrir os motivos para Ser

digo-te parabéns, sim porque hoje é o teu aniversário e eu estou feliz por ti e por te dizer: parabéns

LauraAlberto

















todos os dias
se é o vento que sopra, és tu que me cantas ao ouvido
se é chuva que cai, és tu que me lavas as feridas
se é sol que brilha, és tu que me aqueces a carne

nenhuma flor vive sozinha na selva



LauraAlberto