sábado, 15 de abril de 2023

Aurora...
















Há silêncio

(aquele que desaprendi de temer)

todos os pássaros dormem

ainda

há beleza

tanta

como as ameixas

que carregam a árvore até à loucura

agora

sou fonte

de água cristalina

onde todos os pássaros bebem.


Maria José Meireles

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

QUEM SOMOS

Afinal quem somos nós?
Somos pais, somos avós
E eu já bisavô sou
Somos o fruto do tempo
Que de momento a momento
Do tempo se apropriou.

Viver enquanto se é novo
Diz-nos o sábio povo
É um viver diferente
Daquele que já na velhice
Comporta a grande chatice
Da idade decadente.

Somos seres experientes
Ousados, inteligentes
Que enfrentámos a vida
Contra/ventos e marés
Surgidos aos nossos pés
De cabeça bem erguida.

Vai para mais de dois anos
Que pouco nos encontramos
A Covid não deixou
Menos ativa agora
Relação humana melhora
A "tempestade" amainou.

Foram os confinamentos
Vacinações, contra/tempos
Com perda de muitas vidas
Alastrou por todo o mundo
Constrangimento profundo
E tantas dores soridas.

Agora, daqui prá frente
Ficamos na espectativa
Que a Covid se ausente
De forma definitiva.

Mas um mal nunca vem só
Sabeis bem, e mete dó
Quase de forma instantânea
Um Putine prepotente
Surpreendeu toda a gente
Levando a guerra à Ucrânia.

Sem qualquer estranheza
Recordamos, com certeza
Os bons momentos vividos
Sem Covid e sem guerra
Cada qual na sua terra
Disso não estamos esquecidos.

Minha mensagem final
A todos feliz Natal
Com saúde e muito amor
Que a guerra acabe depressa
É o que mais interessa
Já basta de tanto horror.

Carmindo Ramos

Quando Um Homem Quiser


Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas'

terça-feira, 18 de outubro de 2022

POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA




















I

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

II

Usas um vestido
Que é uma lembrança
Para o meu coração.
Usou-o outrora
Alguém que me ficou
Lembrada sem vista.
Tudo na vida
Se faz por recordações.
Ama-se por memória.
Certa mulher faz-nos ternura
Por um gesto que lembra a nossa mãe.
Certa rapariga faz-nos alegria
Por falar como a nossa irmã.
Certa criança arranca-nos da desatenção
Porque amámos uma mulher parecida com ela
Quando éramos jovens e não lhe falávamos.
Tudo é assim, mais ou menos,
O coração anda aos trambulhões.
Viver é desencontrar-se consigo mesmo.
No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.
Mas gostava de te encontrar e que falássemos.
Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.
Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento
Em que pensei que nos poderíamos encontrar.
Guardo tudo,
(Guardo as cartas que me escrevem,
Guardo até as cartas que não me escrevem —
Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira,
E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair
Através dele até mim!
Enfim, tudo pode ser...
És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis —
E a minha visão de ti explode literariamente,
E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior,
Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto.
Boa noite na Austrália!

17-6-1929
Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 106.

sábado, 23 de julho de 2022

Tarde Te amei!

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova!
Tarde demais eu te amei!
Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora!
Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas.
Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem.
Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez.
Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou minha cegueira.
Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti.
Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti.
Tu me tocaste, e agora ardo no desejo de tua paz.

Santo Agostinho

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Profissão de Fé...

Estou

num avião

que segue

mecanicamente 

o seu curso

indiferente 

ao meu estado de alma.


Maria José Meireles

quarta-feira, 29 de junho de 2022