domingo, 25 de julho de 2010

À Eluana Englaro…



Morreste hoje ao anoitecer
porque nós não queríamos
que vivesses morta ou moribunda
durante uma vida inteira
aqueles que te pediam
o martírio da tortura
não sabiam o que diziam
quando nos ameaçaram
com a culpa
e com a ira divina
eles ainda não entenderam
que as máquinas, os tubos
e as amarras contra a morte
são apenas uma fronteira
onde deixamos de sorrir
e tu já não sorrias
e também não precisavas
de pedir o passaporte.

Alexandre de Castro
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Retirado do abnoxio

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Morta por viver...

Estou morta
por viver
e se é contigo
que eu falo
é porque os outros
(os que pensam
estar vivos)
estão todos
bem mais mortos
do que tu
e eu
não tenho escolha
nem vou morrer
entalada.
Mas logo
que eu encontrar
um vivo
sobre a Terra
podes estar certo
que te esqueço
nesse mesmo momento
e até te dou
o eterno descanso
que já mereces.

Maria José Meireles

Abandonos...

Ela
estava feliz,
disse
que ia embora
do manicómio
mas
a noite chegou
e ninguém veio buscá-la.

Maria José Meireles

quinta-feira, 22 de julho de 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Enya Only time

A Fermosura desta fresca Serra

A fermosura desta fresca serra
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos of'rece,
me está, senão te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enjoa e me avorrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando,
nas mores alegrias, mór tristeza. 

Luís de Camões

Enya Wild Child

Beleza...

Beleza
é essencial.
Se falha
fora de mim
encontro-a
dentro.

Maria José Meireles

Poema das coisas belas

As coisas belas,
as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivo serão belas?
E belas, para quê?

Põe-se o sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama cores porque os meus olhos vêem.
Mas por que será belo o pôr do Sol?
E belo, para quê?

Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando coisas percebidas,
por que direi das coisas que são belas?
E belas, para quê?

Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas
sem precisarem de ser coisas percebidas,
para quem serão belas essas coisas?
E belas, para quê?

António Gedeão, Poemas póstumos (1987)