sexta-feira, 22 de junho de 2018

chega-me ao ouvido um lamento comedido
uma doce canção de embalar perdida nos tempos idos
que hoje ninguém sabe cantar
[se é uma canção de embalar não poderá ser um lamento]
se nestas terras é o verão que chega, noutras é o inverno que começa
e a voz doce e trémula vai percorrendo o espaço
ouço-a, ora claramente ora imperceptível
[se não está ninguém contigo, nada podes ouvir]

a chuva parou, não tenho fome, nem sede sei ter
os primeiros raios de sol rasgam as nuvens pesadas
não quero ouvir os que de mim se acercam, apenas aquela canção de embalar

LauraAlberto
Grata
pelo sabor
da semente
que fui
confio-me
ao silêncio
da solidão
com esperança
na humanidade.

Maria José Meireles

quinta-feira, 21 de junho de 2018

[Quando vier a primavera,], Alberto Caeiro - Valdemar Santos

Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

Cecília Meireles

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Poemas São como Vitrais Pintados

Poemas São como Vitrais Pintados

Poemas são como vitrais pintados!
Se olharmos da praça para a igreja,
Tudo é escuro e sombrio;
E é assim que o Senhor Burguês os vê.
Ficará agastado? — Que lhe preste!...
E agastado fique toda a vida!

Mas — vamos! — vinde vós cá para dentro,
Saudai a sagrada capela!
De repente tudo é claro de cores:
Súbito brilham histórias e ornatos;
Sente-se um presságio neste esplendor nobre;
Isto, sim, que é pra vós, filhos de Deus!
Edificai-vos, regalai os olhos!

Johann Wolfgang von Goethe, in "Poemas"
Tradução de Paulo Quintela

Frame 4:33 - Os amantes crucificados

segunda-feira, 18 de junho de 2018


Dentro
de uma bola
de sabão
lilás
regresso
agora
à sabedoria
do silêncio
que escuta.


Maria José Meireles

domingo, 17 de junho de 2018

Sim
regressas-me
à origem
de todos
os universos
e és ainda
o melhor
abraço.

Maria José Meireles