sábado, 27 de maio de 2023

A vida é uma escada

Com degraus de muitas cores.

Ao longo da caminhada,

Nem tudo são flores!


Subi e desci, vezes sem conta,

Cheguei mesmo a tropeçar!

Por certo não estava pronta

Para poder avançar!

Se subia dois degraus,

Descia dois ou três

Foi preciso recomeçar

Tanta, tanta vez!

Quando Te ouvi chamar

E vi teus braços abertos,

No cimo do patamar,

Percebi que a minha hora 

Acabara de chegar

E senti-me renascer!

Ganhei força p'ra subir

E não quero mais descer!

Guia Senhor os meus passos

Até ao fim da escalada!


Carminda de Sousa Marques 

sábado, 15 de abril de 2023

Aurora...
















Há silêncio

(aquele que desaprendi de temer)

todos os pássaros dormem

ainda

há beleza

tanta

como as ameixas

que carregam a árvore até à loucura

agora

sou fonte

de água cristalina

onde todos os pássaros bebem.


Maria José Meireles

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

QUEM SOMOS

Afinal quem somos nós?
Somos pais, somos avós
E eu já bisavô sou
Somos o fruto do tempo
Que de momento a momento
Do tempo se apropriou.

Viver enquanto se é novo
Diz-nos o sábio povo
É um viver diferente
Daquele que já na velhice
Comporta a grande chatice
Da idade decadente.

Somos seres experientes
Ousados, inteligentes
Que enfrentámos a vida
Contra/ventos e marés
Surgidos aos nossos pés
De cabeça bem erguida.

Vai para mais de dois anos
Que pouco nos encontramos
A Covid não deixou
Menos ativa agora
Relação humana melhora
A "tempestade" amainou.

Foram os confinamentos
Vacinações, contra/tempos
Com perda de muitas vidas
Alastrou por todo o mundo
Constrangimento profundo
E tantas dores soridas.

Agora, daqui prá frente
Ficamos na espectativa
Que a Covid se ausente
De forma definitiva.

Mas um mal nunca vem só
Sabeis bem, e mete dó
Quase de forma instantânea
Um Putine prepotente
Surpreendeu toda a gente
Levando a guerra à Ucrânia.

Sem qualquer estranheza
Recordamos, com certeza
Os bons momentos vividos
Sem Covid e sem guerra
Cada qual na sua terra
Disso não estamos esquecidos.

Minha mensagem final
A todos feliz Natal
Com saúde e muito amor
Que a guerra acabe depressa
É o que mais interessa
Já basta de tanto horror.

Carmindo Ramos

Quando Um Homem Quiser


Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas'

terça-feira, 18 de outubro de 2022

POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA




















I

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

II

Usas um vestido
Que é uma lembrança
Para o meu coração.
Usou-o outrora
Alguém que me ficou
Lembrada sem vista.
Tudo na vida
Se faz por recordações.
Ama-se por memória.
Certa mulher faz-nos ternura
Por um gesto que lembra a nossa mãe.
Certa rapariga faz-nos alegria
Por falar como a nossa irmã.
Certa criança arranca-nos da desatenção
Porque amámos uma mulher parecida com ela
Quando éramos jovens e não lhe falávamos.
Tudo é assim, mais ou menos,
O coração anda aos trambulhões.
Viver é desencontrar-se consigo mesmo.
No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.
Mas gostava de te encontrar e que falássemos.
Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.
Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento
Em que pensei que nos poderíamos encontrar.
Guardo tudo,
(Guardo as cartas que me escrevem,
Guardo até as cartas que não me escrevem —
Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira,
E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair
Através dele até mim!
Enfim, tudo pode ser...
És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis —
E a minha visão de ti explode literariamente,
E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior,
Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto.
Boa noite na Austrália!

17-6-1929
Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 106.