quarta-feira, 14 de maio de 2014

Ai de ti

Ai do poema que não é dança,
Arrepio, crispação,
Medo, segredo e contradição.
Ai do poema que não tropeça,
Que não soluça,
Como quem chora,
Que não suplica como quem ora.
Ai do poema que se demora
A ser estremecimento,
E entendido, sem sentido ter.
Ai do poema que não bebe,
De um trago, o amargo e o doce
Das palavras incompletas,
Com que profere o que esconde.
Ai do poema onde não estão abertas
As portas que a vida tranca.
Ai do poema que se cala na garganta,
Que perante o horror se não alavanca,
Na navalha fina das palavras doces,
Sendo água cristalina para a sede dos algozes.
Ai do poema que não se faz terra e pó,
Para além do pó que és.
E ai de ti, sem um poema que te afiance
Os passos nesta solidão,
Que a vida te dá, sejas lá quem fores,
Sendo o teu rumo a destruição.
Ai de ti sem uma chave que te enlace
Àquilo se não sabes mas pressentes,
Desta inextrincável sorte.
Ai de ti sem um poema que te salve
Do clarão da vida,
E da compacta sombra da morte.

Fátima Marinho

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